Pesquisa faz mapa pelo pesquisador, procura-se pelo avesso - um espelho menos frio que o tradicional. Tato de vísceras, tudo aflora de dentro pra fora até que o traço se enovele no estômago. Bem servido de entendimento o homem dorme, sonha, ronca, folga de seu próprio conhecimento, distrai. Mas ainda é ritmo abrir os olhos, espichar corpo, bocejo, sempre ritmo: a escova no dente, a colherinha acelerando turbilhão no cafezinho. Alimentado o corpo tende às escaras, prega ponto em final de pensamento. Pela palavra, um pedaço de carne lançado no mundo, volta-se ao corpóreo aprendizado: saber é contato. No flap-flap das folhas Aurélio enumera, cadencia: movimento ou ruído que se repete no tempo a intervalos regulares, alternados, sucessão periódica e regular de fases ou variações no curso de algum processo, repetição, fisiologia, música, ordenamento de sons percebido ou considerado segundo as diferenças de acentuação e de duração de cada um deles, qualquer padrão desse ordenamento característico de um tipo ou gênero de música. Ponto. Conhecimento pautado, humano gosta de exemplo, apontar resposta em corpo alheio: como vaivém do pêndulo, as ondas na praia e etecétera sempre comprimida pra carregar infinito. Vibrar essa ideia na garganta, o corpo um instrumento, palavra outro. União daquelas que ressoa infinito, repetindo. Infinitivo é ar, primeira conjugação. Quem respira sabe: ritmo é sangue, fluxo. Coração apenas tum-tum. Osso com osso articula, junta sem limo range, movimento estala, cachorro cava-esconde no quintal, cada rói em seu lugar. Músculo alongado desarticula, tira água de joelho, chora por cotovelo, rouba erres do erro e o que não era pode ser, reconstrói, deslancha o impossível. Frase precisa ginga pra fazer valer poema, é assim, está pelo pêlo, corpo mais corpo sabe tudo de balanço, encontro de poro com poro apura ritmo, tudo muito à flor da pele, e, pelo que se sabe, vai-e-vem vai bem pra ensinar. Isso é isso. O resto é roto, lençol amassado. Arrumadeira encruada diz nojo, mas goza pelo nariz. E máquina de lavar bate-bate o aprendizado pra quem só entende as coisas limpas: sexo é a anatomia do ritmo.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
terça-feira, 15 de maio de 2012
segunda-feira, 9 de abril de 2012
história pra dois
Vou contar uma história que pode ser nossa. Nós vamos caminhar e será amanhã. À noite, porque o ar é mais agradável e o vento inspira silêncios mais cheios. Vamos andar sem palavras, sem procurar respostas, ou perguntas. Podemos parar sob um pé de árvore e fazer coisas sem querer, compartilhando pequenos descuidos. Sem comprometer qualquer caminho, vamos caminhar sem pressa, quer as palavras apareçam ou não. Depois podemos tomar um sorvete. O sabor importa menos que o gosto inventado de nossos sorrisos. Aí, mesmo se dissermos nada, irá sobrar um monte de passos e, quem sabe, alguns espaços. Olharemos para estes e teremos a certeza que não estiveram vazios. Nossa conversa acontece assim. De tudo o que não falamos, nos lembraremos somente depois. Mas, será assunto pra facebook. Então combinaremos outro encontro descabido, sem pressa. Uma história por vez é o que basta para tudo acontecer ao mesmo tempo, sem fim.
domingo, 1 de abril de 2012
Dia da mentira
Não é mentira que sou um cara difícil, daqueles que pensam e se dedicam meticulosamente para que as coisas aconteçam da maneira certa, planejada. Daqueles que cuidam atentamente para não colocar a carroça na frente dos bois. Pois é, mas, de repente, você dá com os burros n’água e é premiado pela própria incompetência. Existem acertos que escapam aos cálculos e alguns fracassos nos recompensam com inegáveis maravilhas. Eu me esforço, tento usar toda inteligência possível em cada coisa que faço. É verdade, toda essa razão é maneira de organizar os sonhos. E todos esses sonhos estão repletos de um afeto difícil de explicar. O caso é que você esquece isso, porque esquenta a cabeça olhando demais para o outro lado, ou tentando prever os próximos passos. No entanto, não tem lado nessa história. Não dá pra imaginar tudo em compartimentos separados. Você faz isso e depois se sente sozinho, achando que algo ficou incompleto. Sai de casa com aquela estranha sensação de que esqueceu alguma coisa, mas não sabe o que. Segue adiante achando que a qualquer momento irá se lembrar. A vida está mais para balaio que armário. Ou tudo está junto, ou não é nada. Não faz o menor sentido dividir as coisas, ou ordenar prioridades. Misturar vida pessoal e trabalho é uma virtude. Quem não faz isso, é porque não faz o que gosta. Dessa assepsia não sofro. Talvez por isso, apesar de um insistente domínio da razão, o amor transbordava e vinha tecendo um rio de coisas no caminho. Eu não planejei fazer amigos, nem receber algum carinho. Impossível prever esses sorrisos que desprendem, num estalo, por uma bobagem qualquer. Não poderia inventar nada disso. Mas, tudo veio junto e está acontecendo. Não é fácil admitir, mas, depois de tanto tempo, a razão saiu perdendo e estou tremendamente feliz com isso. Capaz até de sonhar com uma felicidade tão simples quanto comer um pastel.
quinta-feira, 22 de março de 2012
Depois de abandonada a infância, é sempre mais difícil recomeçar. Os nossos erros estão criados e já não sabemos fascinar diante dos velhos medos. O pavor constrange e reprime. Chorar é fácil, porque fazemos escondido. Difícil é continuar no mundo feito um algo desatado do destino. Antes ter pedras para contornar.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Elegias de Duíno
"Quem nos desviou assim, para que tivéssemos
um ar de despedida em tudo que fazemos? Como aquêle
que partindo se detém na última colina para contemplar
o vale na distância - e ainda uma vez se volta,
hesitante, e aguarda - assim vivemos nós,
numa incessante despedida."
...
RAINER MARIA RILKE
um ar de despedida em tudo que fazemos? Como aquêle
que partindo se detém na última colina para contemplar
o vale na distância - e ainda uma vez se volta,
hesitante, e aguarda - assim vivemos nós,
numa incessante despedida."
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RAINER MARIA RILKE
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
O Púcaro Búlgaro
"Esta paisagem é o país dos meus pais. Me interessa a dos meus netos e bisnetos"
***
"...cada um é o que é e não o que diz ou pensa..."
...
CAMPOS DE CARVALHO
***
"...cada um é o que é e não o que diz ou pensa..."
...
CAMPOS DE CARVALHO
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Elegias de Duíno
"O intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo neste mundo definido"
***
(...)Infância ou futuro
não decressem - uma caudalosa existência
transborda em meu coração"
***
"Não, não acrediteis que o Destino
seja mais do que a infância e do que ela contém."
...
RAINER MARIA RILKE
que para nós não há amparo neste mundo definido"
***
(...)Infância ou futuro
não decressem - uma caudalosa existência
transborda em meu coração"
***
"Não, não acrediteis que o Destino
seja mais do que a infância e do que ela contém."
...
RAINER MARIA RILKE
sábado, 28 de janeiro de 2012
Confissão
Sinto, enfim, que a timidez rompeu o fosso e arregaçou paredes, o esforço fez o sonho do eu desdobrar-se em outros, tornou-se plural, grupo, coletivo, estendeu o palco, fez-se o prumo, o rumo, deu-se o pulo do abismo, e muitos nós teceram a jornada e urdiram a teia do legado de minha juventude. História e experiência, a minha vida é tudo isso: uma obstinada felicidade que cria ramos e frutifica. A árvore aprende a voar com os frutos. Eu me alimento daquilo que planto e me enraízo no vento. Sou cada vez mais feliz e infinito.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
avessos e revisões
Rever um texto é tentar redimir-se, até o último momento, da crueldade de crucificá-lo na página. E a dúvida, que tanto martiriza, mais e mais se avizinha: haverá por fim ressurreição? Pode a palavra pregada purgar o crime da criação?
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Araruama
trazer o céu a bordo dágua
ter os dias espelhados de infinitos
lugares há que sejam belos
mas não existem mais bonitos
domingo, 3 de julho de 2011
praia seca
revela-me o sol o alvo de tuas águas
e o vento inventa quixotescas plagas
e o vento inventa quixotescas plagas
onde se espraiam sonhos de gigante
acalentados em olhos de menino
terça-feira, 21 de junho de 2011
ofício
dizer é exercício
do meu silêncio
pernas que se dobram
o impulso do salto
recolhido, quanto mais calado
maior o meu voo
do meu silêncio
pernas que se dobram
o impulso do salto
recolhido, quanto mais calado
maior o meu voo
sexta-feira, 17 de junho de 2011
ensinamento
não coloque pedras sobre o ninho
é preciso terreno, apontar horizonte
sabendo, a mão que lança, ser raiz
alinhar o timbre, ensinar o canto
é uma plantação de dúvidas semeadas,
mesmo seja, por pontos finais
floração sempre traz surpresas, exclames,
interrogações, reticências - dois pontos:
homem e arte não vêm sozinhos, jamais
ou a frase acaba
é preciso terreno, apontar horizonte
sabendo, a mão que lança, ser raiz
alinhar o timbre, ensinar o canto
é uma plantação de dúvidas semeadas,
mesmo seja, por pontos finais
floração sempre traz surpresas, exclames,
interrogações, reticências - dois pontos:
homem e arte não vêm sozinhos, jamais
ou a frase acaba
quinta-feira, 16 de junho de 2011
caminhos
ondas plantam bramidos
que a areia floresce
curtido no sal, cada grão
sabe a lágrima de seu sorriso
conchas guardam no corpo
o ensinamento dos ventos
o que é do espírito
não cala nem omite
a voz encontra, desbrava
caminhos até os ouvidos
toda palavra é um espaço
habitado de nódoa e esperança
qualquer futuro traz seu tempo
enraizado de lembranças
que a areia floresce
curtido no sal, cada grão
sabe a lágrima de seu sorriso
conchas guardam no corpo
o ensinamento dos ventos
o que é do espírito
não cala nem omite
a voz encontra, desbrava
caminhos até os ouvidos
toda palavra é um espaço
habitado de nódoa e esperança
qualquer futuro traz seu tempo
enraizado de lembranças
domingo, 12 de junho de 2011
sábado, 11 de junho de 2011
infinito
paraíso à sombra não se guarda
não se aguarda frutos ao céu da boca
estrelas são vitórias da luz cravadas na noite
infinito é um corpo que cresce à procura
não se aguarda frutos ao céu da boca
estrelas são vitórias da luz cravadas na noite
infinito é um corpo que cresce à procura
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